Saudades...
Já quase não deves (re)conhecer o homem que há alguns meses aqui passava para te escrever... Ele mudou, mas nem sequer sabe muito bem como ou porquê. Escrevia-te como forma de suprir a falta que lhe fazias, tentanto encontrar em ti algum conforto ao fim de mais um dia igual a tantos outros. A solidão não mudou, nem a cinzentude dos dias repetitivos... Tu estás na mesma, continuas sem existir sem ser na fantasia de uma mente que sonha demasiado, demasiado alto. Então porquê esta sensação de mudança, de que já nada poderá a voltar a ser como dantes? Não sei... De certa forma apenas habituei-me a viver na tua ausência, a aproveitar as migalhas de felicidade que me vou permitindo ter de tempos a tempos. Podia ter sido diferente, sabes? Podia não estar aqui contigo agora. Alguém quase me conseguiu roubar destes nossos pequenos pedaços de monólogo... Ainda dou comigo a pensar o que terei sido na vida dela. Uma aventura? Uma fantasia? Uma esperança? Costumava ser fácil quando nos iam esfaqueando suavemente. As feridas saravam um pouco entre cada estocada, nunca sangravam o suficiente para nos deixar pensativos. Nunca ficávamos a torturar-nos com todas aquelas infimamente pequenas coisas que podiamos ter feito diferentes. Não a censuro... Na realidade não me fez mal nenhum. Apenas teve medo de ver a falta que lhe iria fazer se um dia partisse. Teve medo de magoar-me, de não estar á altura, teve medo de ti, sei lá do que é que ela teve medo. E agora é tarde para explicar-lhe que não precisava (nem queria) que fossem a mesma pessoa. É tarde, muito tarde... Até o dia e o momento, em mais umas das estranhas coincidencias que sempre nos rodearam desde o incio, não podia ter sido mais bem escolhido: Dia do pai. Dois sms em simultaneo, um de despedida, outro da miuda a dizer o quanto tem saudades de mim... Talvez seja só o destino, na sua forma irónica de nos ir moldando a vida, a mostrar o caminho a seguir. Podia ter-lhe dito tanto... Mas há coisas que o orgulho nunca será capaz de ultrapassar, por isso... Resta-me viver um dia de cada vez, o melhor que puder e souber, neste meu canto acolhedor. De vez em quando talvez passe por aqui para escrever-te, para escrever-me...Vou ter saudades tuas...
Rui
